- Vai agora!
Quando jovens, desenvolvemos uma espécie de instinto de eternidade que nos ajudar a pensar na possibilidade de uma morte apenas após a queda dos níveis de adrenalina no corpo, geralmente após momentos de tensão premeditada (apenas a tensão) por atitudes inconsequentes. Porque nada vai acontecer a você, nada. Pessoas só morrem quando velhas.
- Vai, deita logo!
Risos. Soluçantes.
- Põe a garrafa em cima dele, sô!
E os passos trôpegos e vacilantes o cercavam como a uma fogueira num rito indígena, ali, em plena Avenida do Contorno, início da Avenida Nossa Senhora do Carmo. Ele deitou, como requisitado, sem contestar - rindo inclusive -, pois sabia que era a sua vez. Primeiro ajoelhou-se com cuidado, a calça sentindo o calor acumulado e a aspereza do asfalto. Depois, pôs a garrafa de cerveja de lado e apoiou as mãos no chão, sentindo o negrume da borracha que marcava a pista. Rindo muito. Depois, refez o movimento para deitar-se de costas na faixa do meio de três.
- Põe logo a garrafa e sai!
Entre os que o rodeavam, o mais alto deles assumiu a responsabilidade. Equilibrou a garrafa sobre o peito do que deitava, ambos prendendo a respiração e segurando seus risos galopantes. Voltaram-se correndo em direção à marquise da loja da esquina, a não mais de dez metros de distância do corpo. Riam e gritavam para o que lá ficara, não podendo responder para não derrubar a garrafa em seu peito. Semana passada, o gordo deixou a garrafa cair no último instante e pagou sua penitência, tanto que não veio hoje.
Ao longe, ouviram o ruído amaciado do motor subindo a avenida. As luzes começavam a despontar, criando um halo que anunciava sua aproximação. Ao surgir em sua forma completa, os faróis de halogênio eram fortes a ponto de impedir a indentificação do modelo. Daquela distância e em alinhamento quase frontal ao carro, não era possível mensurar sua velocidade com precisão. Mas era veloz. Agora passava em frente ao Pátio e sua luz já delineava os contornos do corpo à sua frente. Usava exatamente a faixa do meio. 80 metros. Não desacelerou. Os sorrisos mantinham-se numa tensão espetacularizada. Era o fascínio exercido pelo perigo. 50 metros. Acelerou. Era um carro branco, esporte. Os sorrisos paralisaram e as sobrancelhas arquearam. Antes que balbuciassem alguma coisa, ouviram o baque da garrafa caindo no asfalto e rolando para o lado e a cabeça daquele lá deitado virando-se na direção do carro. Quando seu braço esquerdo fez menção de apoiar-se no solo para alavancar seu corpo em qualquer direção, sentiu uma rápida pancada rachando o seu crânio e atirando-o de volta ao solo, rebatendo com força e deixando escapar algo de massa encefálica ao mesmo tempo em que os pneus marcavam o corpo com seus sulcos Pirelli e um som surdo que espalhava suas vísceras esmagadas em seu abdomem planado. Tão alto foi o baque que o som das costelas quebrando, misturado ao ronco do motor 2.0, não se fez ouvir. Mantendo a mesma velocidade, o carro seguiu seu curso sem se alterar, sua presença desaparecendo ao longo da avenida.
Na esquina, os três jovens não conseguiam esboçar reação alguma além da tremedeira que soltava as garrafas de suas mãos. O corpo permaneceu no ponto original, talvez movido alguns centímetros na diagonal. O sangue paulatinamente ia formando uma poça que escorria em direção à Nossa Senhora. Imóvel. Tremiam como sob um frio abaixo de zero.
O gordo, ainda muito machucado e com seu ânus dilacerado, não gostara da penitência. Talvez preferisse que essa houvesse sido a sua vez. Acelerou ainda mais ao cruzar a Afonso Pena, sincronizando com a passagem de um 62 que retornava à garagem. Lombada era o nome da brincadeira.
imponderabilia
do mesmo autor de casualidades distorcidas. um córtex cerebral imprensado pelos lados direito e esquerdo. a fúria das letras foi debelada, permitindo a fuga de doze mil línguas ferinas. e somente uma sobreviverá.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
domingo, 14 de julho de 2013
Pera, uva, maçã ou salada mista
A vida - toda ela - é
feita de escolhas. Nem sempre você percebe, mas está o tempo todo
escolhendo alguma coisa. Não falo das grandes escolhas, do quilate
de "Rio de Janeiro ou Muriaé?", "design gráfico ou
emprego de verdade?", "aceita essa mulher como sua legítima
esposa?", "repassa ou paga?" e "débito ou
crédito?" Falo das pequenas escolhas que conduzem às grandes
escolhas. Por exemplo: às vezes, uma sinapse equivocada pode fazer
você levantar o dedo errado durante um aceno cordial. Direcionado ao
seu chefe, digamos. Ou um
vou-virar-à-esquerda-para-fugir-desse-engarrafamentozinho pode
transformar em duas horas o que o
virar-à-direita-vai-fazer-a-gente-dar-a-maior-volta-meu-bem
resolveria em quinze minutos. Ou até mesmo preterir aquela picanha
morbidamente gorda num dia em que o salmão defumado não estava
sentindo-se muito bento pode levá-lo a um coma intestinal. São
escolhas bobas e pueris, que até provocam um certo constrangimento
ao serem citadas, de tão imbecis que são. Mas são escolhas que,
querendo ou não - afinal, são as duas opções que você tem para
cada uma delas -, vão modificar todo o curso da sua vida daqui pra
frente ou a partir do ponto que você optar por uma delas pra frente,
como a moça que recalcula a rota do seu GPS sempre que você insiste
em achar que a próxima curva à esquerda está além dos 83m que ela
lhe estimou. Você refaz o caminho para alcançar o destino original
achando que tudo vai ficar bem. Mas não vai, pois você irá enfiar
seu carro embaixo de uma carreta sueca ao longo do novo trecho
recalculado e não alcançar o destino. Ou então vai alcançar seu
destino e evitar uma hipotética explosão espontânea do seu carro
caso seguisse o roteiro inicialmente proposto. O importante é saber
o seguinte: você nunca saberá.
Mas voltemos ao exemplo
da picanha obesa e do salmão mal-humorado. Tomemos a vida como um
cardápio de um desses restaurantes sem foco nem tino comercial que
servem de sashimi à feijoada com garçons vestidos em trajes típicos
nordestinos. Você o abre e passa os próximos quarenta minutos
imerso na mais pura baixa literatura gastronômica - o que poderia
ser evitado caso já tivesse saído de casa com alguma vaga ideia do
que a sua fome gostaria de comer no almoço. Há pratos para todas as
quantidades de dígitos possíveis, da batata frita ao ganso
alaranjado com foie gras. Em teoria, nada impede você de
escolher qualquer uma das opções, uma vez que estão todas
disponíveis na cozinha, incluindo as mais caras - sim, elas existem
-, mesmo que essa quantidade de dígitos não esteja em paridade com
o seu saldo bancário atual. Considerando essa possibilidade muito
razoável, você escolhe o prato mais caro - por que não?. Todos ao
seu redor, esposa, filhos, sogros, garçons, os vizinhos metidos a
ricos que estavam pensando em fazer a mesma coisa quando viram que
você estava na mesa ao lado, o gerente do seu banco, seu chefe, duas
de suas ex-namoradas que, de tanto compartilharem as frustrações da
sua experiência, acabaram tornando-se não apenas melhores amigas,
mas namoradas, o pároco da igreja do bairro - esse não importa,
você é ateu -, além de um grupo de crianças feias que você nunca
viu na vida, todos eles lhe encaminharam seus melhores olhares de
consternação, desdém e incredulidade. Porque, não apenas o
gerente do seu banco e o seu chefe, mas todos ali sabem da sua
situação financeira, inclusive sua mulher. O garçom ainda hesita,
reluta em levar o seu pedido a cozinha, mantendo um olhar
constrangido como que esperando uma retificação. Você finca seu
orgulho em seu peito com a serenidade de quem sabe a merda que está
fazendo, ele resigna-se e dá as costas a você em passos lentos e
semblante demitido. Ainda vira-se com cara de cão abandonado em sua
direção, na vã esperança de aquilo tudo era uma brincadeira e que
tudo ficaria bem, mas você já dava atenção à sua assustada
mulher.
Eis que o seu assado de
orangotango ao curry chega. Você come, delicia-se, lambe os dedos e
cada centavo daquele símio. Enquanto isso, a torcida adversária
apenas aguarda o fim da comilança para começar a se divertir com
sua falta de recursos. Sua mulher e filhos pediram espaguete à
bolonhesa e dividiram o prato entre si - "não estamos com
fome." Você pede a conta, o garçom o traz com um certo ar de
desafio faroéstico e entrega-a em suas mãos. Você vai direto para
o final, dá uma fungada sorridente incontida, balança a cabeça
negativamente e começa a rir baixinho. Olha de volta para o garçom,
devolve a conta ainda balançando a cabeçorra e diz "não
tenho." Mesmo que esperasse aquela situação, o garçom
esqueceu de trabalhar uma forma de lidar com ela. A confusão se
instala. vem o gerente, vem o dono do restaurante, vem o cozinheiro e
a família do orangotango tomar satisfações com você. Desenrola-se
uma ação rocambolesca que culmina em sua ida à delegacia mais
próxima. Daí, o perco de vista e continuo com minha taça de vinho
e o bobó de camarão.
O que quero dizer é
que: escolhas, você pode fazer qualquer uma. Desde que o
cristianismo simpaticamente nos concedeu o livre-arbítrio - com
algumas restrições -, nós podemos seguir nosso próprio rumo,
apenas precisando pagar algumas penitências e pais-nossos no caso de
transgressão. Cada escolha tem seu preço tabelado. O fato de você
querer uma coisa ou outra é justo. Fato é que nem sempre você terá
os recursos para ela. Mas tudo bem! Para os casos de impossibilidade,
existem os meios. Se usá-los com astúcia, terá, sim, aquilo que
quer, desde que não se importe com a polícia, os extremistas
religiosos, a Scotland Yard, o seu advogado ou os programas de
fofoca. E isso vale desde as pequenas escolhas, pois são elas que
produzem as grandes tragédias. Melhor: as grandes escolhas são um
amontoado de escolhas inicialmente insignificantes, que mudam de
status a partir do momento em que você se vê em grandes apuros. É
bem provável que sua visão não tenha todo esse alcance e que,
enquanto você faz escolhas espúrias e inocentes no conforto de sua
ignorância quentinha, mal sabe o tamanho da avalanche fecal que se
projetará sobre você no caso de seguir a sequência correta dos
fatos (para acionar a avalanche).
Portanto, cuidado com
as gôndolas de supermercado.
segunda-feira, 25 de junho de 2012
A condessa de Humaitá
Condessa de Humaitá, enfurnada em pomposo palácio, mármore reluzente ensolarando o salão, eco dos passos, eco do tamborilar dos dedos entediados. A condessa, rubor capilar, mandando e agora desmandando, falta do que fazer. Chama, manda, deita, rola. Espaço demais. Trono vazio ao seu lado, trono maior, coroa no assento, esperando uma cabeça que lhe caiba. Cabeças pequenas demais, os corpos pequenininhos sambando no tronão. Tédio. Tédio e masturbação. Dedos calejados. Aboliu as ceroulas, o calor crescente vindo de baixo. Uma das amas passava o dia a lhe abanar. Ó, maldição, onde andará essa realeza de merda que não - plim! - surge naquele portão, a silhueta contra o sol inconveniente, escura, mas vigorosa, montanha de massa e braços e costas e rosto forte decidido os pêlos no peito de homem versado adorno da experiência a segurança nas pernas de pisada dura o andar ereto de quem já baixou demais a cabeça para as adversidades a fala suave de voz firme pausada lenta arrastada deus esse bafo quente por baixo desse vestido faustuoso tudo o que eu queria essa língua quente ativando as zonas erógenas subindo esse ardor nervo a nervo até o suspiro da boca os tremeliques involuntários dos músculos a paralisia latejante corpo que explode fogos de artifício bomba bomba bomba contrações maldita língua que não para e meu corpo tenta não quer mas tenta fugir escapar dessas chibatadas molhadas e as amas apenas observam com ar preso na garganta e os membros quentes desejando tocar-se quando tudo o que podem fazer é observar meu sorriso sacana e quente para elas e manter os braços para trás rindo horrores das vontades delas incapazes enquanto esse rei de língua ávida espalha toda a ranhura de sua superfície macia sobre minhas carnes mais nobres por deus ele não para quem pode suportar isso deixa sair goza goza goza mais queria explodir todo esse gozo em sua cara um jato pressão enorme expulsa esse demônio para fora do meio das minhas pernas, mas a soleira do portão apenas clareia o sol lá de fora. Ólho com o canto do olho, a ama percebe minhas faces ruborizadas, engole em seco e deixa o salão. Ó, maldição, pequeno príncipe da língua mecânica, onde andarás que não aqui, no conforto de minhas pernas?
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Aruba
Frondo. Frondar. Frondo-so. Fronda fronda. Coquetel de côco, batido com rum, pedras de gelo cremosas, canudo fino de plástico azul no copo de requeijão. E o cabelo frondoso dela na revista. Suga o canudo abrindo bem os olhos. Amarelo-âmbar de tanto rum. As nuances tropicais, Aruba. O frondar aristocrático, saltos de cristal. Batida de côco ou Veuve Clicquot? Tacinha vagabunda meio cheia meio vazia, mal cabe um canudo em pé. Copo de requeijão robusto, rum até a borda. Transbordando, aruba. Comprar guarda-chuvinha para por no copo. Aruba, ukelele, hula hula, isso é Havaí, Hawaii. Legião de pinguins, os sem-cara, com suas companheiras frondosas. Meu short de futebol, pé descalço sobre o sofá, copo de requeijão cheio de Montilla Gold com leite de côco. Açucar. Mole, mole. Tridimensional. Folha de papel de rotativa. Agora um copo vazio, que está cheio de ar.
terça-feira, 24 de maio de 2011
Dedo
Dou-te um dedo por vez, e eis que já me encontro desmembrado. Sem função, sou atirado à caixa dos brinquedos para doação. Porra, mas que merda. Era só dar a corda nas minhas costas, palhaço, quen-quen.
Magnetic Fields
Ante uma bússola, acha-se o norte. Exceto se você estiver veraneando nas Bermudas, nesse instante.
Cursing
Maldição: uma série de ocorrências derivadas de algum evento específico no passado, capaz de provocar todo um encarrilhamento de maus presságios e péssima sorte. Estudiosos do assunto buscam sempre encontrar o cerne das questões que originam esse estado de letargia negativa que fede à má sorte, em quaisquer circunstâncias. Maldições acometem as pessoas com um mau cheiro que, aparentemente, não existe de verdade, mas que, de alguma forma, faz com que as pessoas lhe evitem na rua, desviando de você como de um gato preto ou de uma escada encostada num muro. Também faz com que os mal-afortunados sofram lesões inexplicáveis, brotando neles inchaços e inflamações decorrentes de nada. Gastrite, pneumonia, urticária e rosácea também costumam dar as caras, assim como cortes e queimaduras na cozinha que seriam pouco prováveis. O ser amaldiçoado deve passar - a ciência ainda ignora como - sua carga para um próximo.
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